Adiantei o dedo e senti o toque da escuridão. Não devia ter tocado minha alma, não devia ter tomado consciência do que trago.
Anael observou pensativo a pilha de corpos dos vigilantes.
Em silêncio viu três das demianas, Sekhmet entre elas, se aproximarem dos corpos e alçar as mãos na direção deles, os olhos se fechando, os pensamentos se concentrando.
Então, lentamente, viu os corpos começando a brilhar, até que se desfizeram, nada sobrando sobre a terra.
Levantou os olhos para o alto do morro e viu vários vigilantes observando de lá, como viu algumas dêmonas dos submundos observando também em silêncio.
Assim que o último corpo se desfez, sobre os morros ninguém mais podia ser visto.
Foi então que viu, sob uma árvore, um silencioso e pensativo Gadhiel.
Sem demonstrar qualquer pressa tomou sua direção.
Se aproximou e ficou ao seu lado, os olhos também pensativos, fixos ao longe.
Em silêncio, por longo tempo permaneceram assim. Não havia necessidade de qualquer palavra ou gesto. As sensações diziam por si mesmas, a energia irradiada denunciava todos os pensamentos.
Por fim Anael inspirou profundamente e se voltou para Gadhiel, os olhos tranquilos e em paz.
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- Realmente, meu amigo, tenho certeza que não tinha como evitar o que aconteceu.
- Para isso não há necessidade de qualquer resposta, pois que a verdade está apresentada por si só, Anael. O que dói, o que me dói, é ter que aceitar que, em determinados momentos, é justificável que a escuridão assuma.
- Ela te assumiu?
- Se matar como um instrumento sem sensações, então sim, a escuridão me tomou. Às vezes tenho visões. Me esqueço de muita coisa, porque muita coisa está velada para mim. Mas eu vejo a mim, com vários outros que sinto que são meus irmãos, ou eram, e sei que fomos guerreiros por muitos e muitos tempos, quando descobrimos dentro da criação a escuridão. Quantos mundos já foram destruídos, quantas civilizações já foram destruídas, quantas almas já foram destruídas e lançadas de volta para o UM? Não quero de volta o guerreiro que fui, Anael – confessou com pesar.
- Meu amigo, se você tem esses pensamentos, então fique tranquilo, porque a escuridão não está em você.
- Quero pensar que isso é verdade – gemeu.
- Pois eu sei. Sabe, essa é uma das minhas capacidades, a de poder sentir e medir a escuridão. Há vários graus aqui, em nosso pequeno grupo, mas não vejo, em nenhum, algo que emita um alerta. Combatemos, matamos, sabendo que, mesmo quando assim combatemos, combatemos com compaixão pela centelha que está alojada no ser amedrontado que busca subverter e instilar nos outros o mesmo medo que o possui, para que se justifique no que o corrói. Eu sei, eu vi. O mal me afeta, e sinto-o, pois sinérgico eu sou. Sei do que estou falando.
Gadhiel o olhou com bastante atenção.
- Você é um AsaLonga[1]?
- Sou, como a grande maioria do que agora é o nosso grupo – confessou.
Por fim Gadhiel relaxou e sorriu, lembrando-se de algo:
- Bhantor, Theliel e Amonet não são AsasLongas, não é mesmo?
Anael riu alto e bateu nos ombros de Gadhiel.
- Claro que não... Só a surra que levaram para não tomar o céu já declara isso, não é mesmo?
Feliz, ainda rindo, tomou a direção do grupo perto da margem do rio.
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[1] Anjo que não foi lançado para baixo, mas que desceu à terra por vontade própria.